
Estou há horas parado aqui, não tenho coragem de olhar ao relógio para saber bem quais horas são. Desde que cheguei eu sentei e esperei. Não sei ao certo o quanto mais terei que esperar. Esta tocando uma música no piano, eu não sei quem, não quero olhar. Você já perdeu alguém? Não, não quero ser dramático, mas não se sabe a dor o quão forte ela é até ela chegar. Alguém passou a mão no meu ombro e deu leves tapinhas.
Você é ligado com uma pessoa com um fio de aço, e esse fio está conectado ao teu coração, e ele passa por tua carne, e esse fio é revestido de carne e sangue, ele cria vida, esse fio já são vocês dois. Já os conecta como um só. E então alguém vai e corta o fio e te separa dessa pessoa. Ah, não cortou apenas carne, cortou um membro teu, cortou parte tua, cortou tua proteção.
Não sei quanto tempo estou parado aqui, sei que a mesma música toca a bastante tempo, ou serão pouco? Não sei, é difícil dizer. Sabe como é esquecer o sorriso mais bonito da tua vida? Não, não saberia, não se nunca tiver sentido. É como estarem dias numa cela e então ser libertado e sentir raios solares são algo parecido, e então te colocam na cela escura novamente, e novamente você está sozinho. Esse era meu maior medo, ficar sozinho, e ele se tornou realidade.
Alguém me oferece chá, como eu poderia beber chá numa hora dessas? Quando eu tenho filhos pra criar, quando terei que ser pai e mãe? Quando terei que ser sozinho?
Começou a ficar frio de repente, acho que é inverno, não sei ao certo, nem tenho vontade, já não tenho alma ela se foi e estou vazio, sou um recipiente sem utilidade, sem vida.
Tenho que esperar a resposta, e então é assim que uma faísca de vida se ilumina dentro de mim, mas me lembro de que esperanças são para tolos e eu não posso me permitir ser tolo. A faísca se apaga e tudo se envolve em escuridão novamente.
O meu estomago está doendo, tem quantos dias que não como? Dois? Talvez, não sei. Não que eu queira morrer, mas chega um momento que a dor é maior que a fome, a dor é maior que a vontade.
Respiro, alguém trouxe biscoitos, eu pego um, mas eles tem gosto de papelão na minha boca, são secos e pontiagudos, machucam mais ao meu coração que ao meus lábios. Jogo fora.
Quanto tempo se passou? Dias talvez? Um ou dois?
Me liberte, me liberte dessa prisão emocional, cuja minhas mãos estão atadas a espera de uma resposta.
Eu escuto algum pássaro cantando, nunca ouvi canto mais triste, ele se embala com o piano de uma forma tão suave que se tornaria adaga e arrancaria meu coração. Que coração?
Passos, alguém vem vindo, olho para os pés, afinal estou sentado em um canto qualquer no chão. Pés de homens. Olho para cima e vejo a expressão fechada.
– Não será hoje, não hoje. – Ele se vai novamente, e aquilo que eu achei que já não teria mais volta aparecer, meus olhos transbordam e deles saem sonhos e esperanças, todas morreram todas. Não hoje, mas sei que pode ser amanhã.
– Mas eu tenho filhos pra criar – Eu murmuro, e do que adianta? Olho para o relógio, e os ponteiros do relógio nunca mexem quando você olha pra ele. Será que é isso que está acontecendo comigo? Me levanto enfim, tenho filhos para criar e não serei eu o tolo, não hoje. Não agora. O relógio não se mexe, será que ele parou no tempo ou eu parei?
