– Você a beijou?
– O que?
– Você a beijou?
– Não, claro que não.
– JURA?
– Juro. Eu não a beijaria.
– Ainda bem.
– Por quê?
– Nada.
– Tudo bem.
– Não vai insistir?
– Pra que? Você não vai dizer.
– Eu ia.
– Então diz.
– Não quero mais.
– Haha, aí viu.
– Não quero que a beije.
– Por quê?
– Porque eu sei que se a beijar vai a amar ao ponto de me deixar largada e nunca voltar. E eu vou ser rasgada por dentro, queimada por fora. Morta milhares de vezes antes de descobri que tô viva, a porra de uma vida viva.
– Às vezes você me assusta.
– Tudo bem, eu a beijei.
– O que?
– Nada.
– Agora diz!
– Nada.
– Diz.
– Digo.
– Então diz.
– Já disse.
– Eu não escutei.
– Porque não quis.
– Qual é, tem quantos anos?
– Os de sempre.
– Tudo bem.
– Não insistiu.
– Não precisei.
– Eu que não quis.
– Estou indo.
– Tchau.
– Ciao.
– Bye.
– Ourrevoá.
– Nem se escreve assim.
– Mas se pronuncia.
– Então tá, Ourrevoá.
– Ourrevoá.
