Uma eternidade entre o Tempo e o Relógio.


Caminhei por entre as lápides com um sentimento de resignação.

Estava lá, o vivo andante, o morto em vida.

Ao meu lado o silencio sepulcral.

Sepulcral até onde se sabe que o é.

Será que realmente é? Será que não há mais sons no local de descanso não tão eterno dos mortos?

Semana passada mesmo, lá no fim da rua da minha casa de infância, onde havia um cemitério há anos desativado, fizeram uma revitalização e estão construindo um condomínio de casas sociais.

Viva la vida.

Lo siento.

A noite está fresca e o vento está calmo.

Ao meu lado anda uma alma mais velha que a minha.

Ela me olha, seus olhos fundos de sono, caídos e parvos.

Fala com os lábios rechonchudos e azulados.

Há cada sussurro um farfalhar nas folhas das árvores que ornam este lugar.

— Não te ouço. – Até a minha voz se torna transgressora contra as normas não ditas nesse lugar de silêncio e lamento.

Alguém vem aqui para rir? Alguém vem aqui para dançar?

Além dos adolescentes esquisitos que transam em cima das lápides e bebem enquanto ouvem músicas lamuriosas de cantores das vozes roucas e desguarnecidas.

— Perdão, meu amor. Perdão – Eu choro enquanto a olho. A imagem de minha memória. Porque não há nada mais para ver. Nada mais para ouvir, sentir, querer.

Abandono a lápide com seu nome gravado no jazigo.

Continuo caminhando até os portões altos e enferrujados. Não olho para trás.

De que adianta?

Orfeu e Ayla gritam.

Eu os ouço enquanto o portão se fecha atrás de mim.

Um dia para os vivos, uma eternidade para os mortos.


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