Me peguei olhando no espelho. Da cama eu te via deitado. Espreguiçou e sorriu. Não foi pra mim, eu sei. Me deu uma vontade de te puxar pra perto, abraçar bem gostoso e sentir teu cheiro distinto, mesmo sendo o cheiro de sempre, café preto.
Noventa por cento de mim é você, e nas outras dez eu me perco. Parece até que você é meu Yang.
Olha como estou gorda, devia dá um jeito de entrar na academia.
– Bom dia – Você sorri, meio sorriso, meio amargo, meio doce, meio dormindo e meio acordado.
– Já é tarde.
– Quem disse?
– O relógio, o sol, o dia.
– Mas eu quero que você tenha um bom dia, independente das horas.
– Hum. – Ele riu alto, sempre queria está no comando. Eu, por mais que minta, omita e finjo não gostar eu gosto. Eu amo.
– Um abraço num pobre homem que ama essa mulher gostosa! – Ele me abraça, mas não desses abraços frouxos, meio de lado, meio parado. Um abraço forte, desses que aperta o pulmão, cutuca o fígado e parece sentir o coração.
– Sabe porque eu gosto de você? Não, por que eu gosto muito muito muito muuito de você?
– Hum?
– Eu não sei! Não faço a mínima ideia, mas quando eu te vejo sorrir, é um soco no estômago, que parece acordar lagartas em metamorfose e voar até, aqui embaixo, você sabe.. – Ele ri alto me soltando.
– Ah, cala a boca! – Eu sorrio, sorrio porque o amo.
– Você está cada dia mais gostosa.
– Estou gorda.
– Está gostosa, pra mim é assim que tem que ser, você.
– Vou vomitar, você anda um chato! – Antes de entrar no banheiro ele corre até mim e me joga na cama. Será possível alguém explodir? Será possível um amor maior? Me libertei, desabafei tudo o que senti e o que sinto.
– Eu te amo.
– O que?
– Não vou dizer duas vezes. Meus atos expressam mais que palavras. – Ele se levanta novamente e antes de finalmente entrar no banheiro ele vira pra trás – Anota isso, mas antes passa minha roupa. E estou com fome. Café com creme e anda logo.
Nem tudo é perfeito, mas o perfeito é ser do jeito que é.
Me olho novamente no espelho, estou gorda. O ar cheira a café.

