Suspiro.
Demorei a estar aqui, nessa metafórica página em branco e, de antemão, já peço desculpas pelo português quebrado. Faz tempo. Muito tempo.
Me peguei pensando, esses dias antes de cair em um sono profundo, o quanto eu renego minhas memórias. O que me fez lembrar foi uma notificação do Google Fotos, dizendo “Relembre há dois anos”, simplesmente eu pensei, em um grito alto “Não quero relembrar nada!”. E assim, vivo constantemente bradando aos quatro ventos “Tenho uma memória péssima!” Será que está associado ao meu desejo intenso de não relembrar? Você, minha cara terapeuta, se estiver lendo, deve saber a resposta, ou ter diversas hipóteses embasadas nas variantes vertentes do estudo da mente humana. Eu? Nada sei. Sou um receptáculo com o fundo trincado, daqueles que ninguém percebe, até ser tarde demais, quando você o enche de leite ou água, ou pinga, ou molho, ou seja lá o que for, e ele vaza, faz uma lambreca e você ainda se irrita! Sou assim, um receptáculo quebrado.
Agora, depois de falar tanta abobrinha (por quê dizem abobrinha? Um legume tão saboroso) eu vou despejar, vomitar, jogar, espalhar, compartilhar, cuspir, suspirar, sussurrar o que está em minha mente.
Nada! Brincadeira.
.
Está escuro, está sempre escuro ou nublado.
Eu ando, não muito rápido, nem muito confiante.
Meus passos são gingados desajeitados, de corpo pesado, com os pés meio tortos.
Não é fácil.
Está escuro, ou nublado?!
Estou andando. O caminho sem rumo, como sempre foi, como é agora.
Há dois caminhos, um inexplorado, o outro conhecido e esquecido.
E então, eu.
Num eterno decidir se irei tomar uma decisão, indecisa.
Num eterno sem saber se eu ainda sou quem já fui, se eu já não sou mais quem eu sou, se eu estou me tornando outra, a quem serei.
O caminho bifurcado. Parei, olhei para todos os lados. Minha memória continua vacilando, umas sombras sussurrantes, em forma de crianças risonhas e tristonhas, que correm e se escondem atrás das paredes.
Eu escutei uma risadinha. Corri, ali me lembrarei.
Mas já se foi. Não consigo me lembrar.
Não me lembro de nada, nada, nada nada nada
Como saberei que eu sou, quem serei se nem me lembro de quem eu fui?
Veja essas fotos! Veja! Olhe, encare esses olhos, encare esse sorriso falso, esse olhar sedutor, esse sonhos perdidos, encare essa sombra que você é, que você já foi!
Não choro.
Não choro, porque já chorei muito. Já andei muito, já gritei muito, já pedi muito.
Um socorro silencioso que eu digo entre sorrisos, entre sussurros, entre gemidos.
Eu, eu mesma! ME salve! Nos salve!
Como poderei salvar Eu-você e Eu-eu, se estou aqui parada, nesse caminho bifurcado, nesse dia tão nublado, escutando essas risadas de crianças memórias-perdidas-esquecidas-fantasiadas e todas fantasmas?
Como nos salvarei? Como?
Eu grito, eu paro, não ando, eu deito e durmo.
Olhei para trás e me vi, lá longe parada, eu sorria e chorava, eu sonhava e planejava “Saberei o mundo.”. Tola. Burra. Estúpida.
Você nem nos salvou, você nem se dignou a nos lembrar de nós mesmas.
Agora estou aqui, parada nesse dia escuro, nublado, caminha bifurcado, sem ter braços para correr, sem ter colo para abraçar, com um espelho embaçado, sem ter coragem de olhar “que feia me tornei”.
Suspiro.
Você vê? Vê quem eu sou? Então me diga! ME DIGA, ME DIGA ME DIGA, ME DIGA!
Eu sou aquela, essa ou àquela?
Eu sou carne, sou osso, sou sangue, bactérias, enzimas, o diabo a quatro. Eu sou nada e sou tudo. Eu sou uma casca.
Eu sou eu, mas também posso ser você. Quem sabe? Tudo isso é… A palavra sumiu.

2 respostas para “Uma volta receosa, com um português ruim e memórias quebradas.”
Oi, E. S. Estou lendo um livro de Leonardo Padura, “Hereges”. Você me lembra Judith. Gostei do texto.
Não conhecia o livro, me interessei!