Você, o tempo e eu. Nós três.


havia uma mulher andando
a vi de longe, o sol forte, o chão árido.
descalça, andava olhando para frente; às vezes, o pescoço virava,
me olhando de soslaio.
“os pés devem doer, estão queimados, devem arder.”

havia uma criança chorando;
os soluços faziam o céu balançar,
os gritos se tornavam trovões,
o choro era água em meio aos raios.

a mulher, ao longe, andando,
a criança, ao longe, chorando,

e eu, parada, de perto, olhando tudo, de uma lupa.
eu, observando; ela, andando; você, chorando.

o tempo parou.
em mim, o vazio.
elas me olharam,
eu tudo senti.

agora, ela chora, e me corta o coração.
a mulher que anda se abaixa,
a pega nos braços,
a abraça.

e eu? quem há de abraçar,
se elas são eu,
se eu sou elas?

entre nós três, espero.

o ontem,
o amanhã.

o agora me pertence,
e a ela, sempre pertencerá.


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